Crítica: live-action de “A Pequena Sereia” impressiona pelo equilíbrio entre emoção e técnica

“A Pequena Sereia” é um filme cheio de emoção, beleza e reflexão, que só não é perfeito por deixar de explorar novos elementos que tinham potencial narrativo.

22/05/2023 às 13h00 Atualizada em 10/04/2026 às 20h21
Por: João Pedro Dias
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Halle Bailey como Ariel em “A Pequena Sereia” — Imagem: Reprodução | Disney
Halle Bailey como Ariel em “A Pequena Sereia” — Imagem: Reprodução | Disney

Esta nova versão em "live-action" é, sim, necessária, ao contrário do que pensa uma parte do público na internet. Quem nunca se imaginou vivendo no mar ao lado de Ariel enquanto assistia à obra original? Isso sem contar o modelo de gentileza e determinação que ela é.

É preciso humildade para reconhecer que, apesar da nostalgia, o verdadeiro público-alvo dessa releitura são as crianças. Dito isto, o filme é bastante fiel à animação e as mudanças são feitas para preencher lacunas ou proporcionar um ar de novidade, o que é realizado com grande êxito.

Como deveria, Ariel é a alma do filme. Halle Bailey fez um trabalho irretocável — trazendo doçura, inconformismo, curiosidade, atitude, frustração e emoção em medidas perfeitamente balanceadas. Ela é uma estrela.

É muito curioso observar o quase desespero com que a sereia clama pelo mundo da superfície no clássico Part of Your World, em contraste com a sua decepção na excelente nova canção For the First Time, ao ver que parte das atrocidades que o seu pai falava sobre a terra eram verdade. Aliás, as dinâmicas da relação entre ela e Rei Tritão são cheias de nuances e, certamente, o público vai se identificar em algum aspecto.

Esse era exatamente o tipo de elemento que faltava para completar Ariel como personagem, para que as pessoas entendessem as suas motivações com mais clareza, o que é proporcionado de maneira muito mais eficaz pelo novo roteiro.

Nesse sentido, os paralelos traçados entre a vida e os anseios da sereia com os do Príncipe Eric são muito positivos. Aqui, o Eric de Jonah Hauer-King serve de espelho para a protagonista. Enquanto Ariel coleciona objetos humanos, Eric tem corais; se de um lado há um pai que teme o continente, do outro há uma mãe que teme os oceanos; enquanto ele anseia pelas águas, ela anseia pela terra.

São essas equivalências que tornam o romance do casal mais crível, profundo e natural, fugindo da ideia superficial de um amor platônico. "Superficial", aliás, é um adjetivo que não combina com o príncipe nesta versão. A música dele, Wild Uncharted Waters, dá ao público uma ideia melhor do que se passa em sua mente.

Isso não torna a canção necessariamente boa, mas a importância dela para o arco de Eric é inquestionável.

No lado do antagonismo, Melissa McCarthy serve um espetáculo à parte como Úrsula, enquanto Jessica Alexander, como Vanessa, abraça seu pouco tempo de tela com todas as forças e entrega uma interpretação impecável, especialmente em Vanessa's Trick e em sua última cena, que com certeza renderão muitas edições de fã nas redes sociais.

Entre os coadjuvantes, Sabidão é quem mais brilha com seu humor e carisma; Sebastião é tão bom quanto na obra original, enquanto Linguado fica levemente apagado. Os efeitos visuais desses personagens e de todos os outros animais são críveis e não incomodam.

As músicas regravadas soam tão boas quanto as originais, com exceção daquelas em que Halle Bailey canta — essas ficaram infinitamente melhores.

Além do talento incomensurável da protagonista, o verdadeiro destaque vai para o visual das cenas, que mais parecem, no bom sentido, um espetáculo de teatro da Broadway, elevando o nível do filme em Under The Sea, Poor Unfortunate Souls e Kiss The Girl.

A nova música com Sabidão e Sebastião, The Scuttlebutt, é divertidíssima e feita especialmente para as crianças, que vão amá-la.

A minha maior crítica ao longa é que ele introduz algumas ótimas oportunidades de expansão de relacionamentos e mais mitologia, mas não as utiliza em seu potencial máximo.

Por que transformar Tritão e Úrsula em irmãos se não iriam aprofundar a dinâmica deles? Por que mencionar repetidamente a Lua Coral e não explicar exatamente o que ela é? E o canto de sereia? Sim, algumas dessas questões são abordadas nos livros temáticos já lançados do filme, porém creio que uma obra deve se sustentar sozinha.

A impressão que fica é que guardaram esses tópicos para uma possível sequência ou prequela. Não é necessariamente negativo reservar esclarecimentos de subtramas para o futuro, mas quando isso diminui a força do filme atual, é.

O longa é perfeito em quesitos técnicos, ouso dizer. É incrível a quantidade de cenas subaquáticas com uso de computação gráfica em larga escala, todas executadas com maestria. Não há um momento sequer em que o filme pareça falso ou de baixo orçamento, muito pelo contrário; é tudo do mais alto nível.

Todas as escolhas de figurino, desde o visual das irmãs de Ariel, até os vestidos que a protagonista usa em terra firme, são impecáveis. Essa releitura é um dos maiores espetáculos visuais dos últimos tempos, sem nenhum exagero.

Por fim, A Pequena Sereia é um filme cheio de emoção, beleza e reflexão, que só não é perfeito por deixar de explorar novos elementos que tinham potencial narrativo.

Nota: 8,3/10

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