
No início desta semana, o diretor de Duna: Parte Dois, Denis Villeneuve, disse para o The Times do Reino Unido:
Os jovens adoram assistir a filmes longos porque, se estão pagando, querem ver algo substancial. Eles anseiam por um conteúdo significativo.
A fala de Villeneuve, na verdade, se estende além do público jovem. Todas as pessoas querem ir ao cinema e assistir a um filme substancial. E a sequência de Duna, assim como o primeiro longa, é exatamente isso.
Substancial não apenas na história, que abre espaço suficiente para os personagens se desenvolverem e para as coisas se desenrolarem, mas também no visual e no som.
As cenas ambientadas no deserto impressionam quando o sol está baixo, junto com os filtros escolhidos para diferenciar os ambientes.
Os efeitos sonoros, além de aumentarem a tensão e o peso de muitos diálogos, dão sensação de profundidade para o que acontece na tela. Por exemplo, há um momento em que um verme de areia se aproxima lentamente de um personagem, e o som acompanha esse movimento até explodir.
São coisas simples, mas que preenchem as cenas.
É chegado um ponto em que os elementos sensoriais se tornam comuns, no bom sentido. Aquela sensação de Estou em boas mãos, posso relaxar.
Nesta sequência, Paul Atreides se une a Chani e aos Fremen em uma guerra de vingança contra os conspiradores que destruíram sua família. Diante de uma escolha entre o amor de sua vida e o destino do universo conhecido, ele se esforça para evitar um futuro terrível que só ele pode prever.
Há uma continuação natural da tentativa de entrosamento entre Paul (Timothée Chalamet) e os Fremen - desde que o Império enviou, de maneira enganosa, a Casa Atreides para morrer no planeta Arrakis. A fim de conquistar a confiança do povo nativo, o protagonista usa frases clichês que todo mundo já ouviu alguma vez na vida.
Quem não cai na ladainha é Chani (Zendaya). Mesmo depois do casal construir um relacionamento bonito, mas pouco desenvolvido, a jovem mantém os receios dela quanto ao parceiro estrangeiro. É bom ver a cultura dos Fremen, mas ainda mais poderia ter sido mostrado, uma vez que eles são a alma da história.
Zendaya está confortável em seu papel. Timothée Chalamet sustenta dois lados de Paul, mas peca na transição. Quem realmente se destaca é Rebecca Ferguson como Lady Jessica Atreides.
Apesar das tragédias, o primeiro filme termina com uma sensação mínima de familiaridade para Paul: pelo menos a mãe dele está viva para acompanhar e apoiá-lo. Mas isso é bom?
Já no início da sequência, Lady Jessica se mostra mais bruta em combate. Ao decorrer do longa, ela escala e leva o filho dela a trilhar caminhos que ele mesmo temia. Os métodos de Lady Jessica são os mesmos de líderes religiosos mal intencionados: manipular e oprimir os fiéis por meio da crença. É angustiante ver ambos os personagens mudarem.
A fé, aliás, é o tema central de Duna: Parte Dois. Os roteiristas Denis Villeneuve e Jon Spaihts fizeram um excelente trabalho ao mostrar os contrastes da população de Arrakis nesse aspecto.
Enquanto o Sul defende com rigidez as lendas do profeta superpoderoso Lisan Al-Gaib, o Norte assume uma visão voltada para o ateísmo. Eles mostram como o credo pode contribuir para o bem-estar de uma população, como quando os Fremen economizam água por necessidade e por considerá-la sagrada, ou ser usado para suprir interesses destrutivos.
Por fim, cabe citar as adições de peso no elenco: Austin Butler e Florence Pugh. Feyd-Rautha da Casa Harkonnen é hipnotizante e deixa um gosto de quero mais, devido ao destaque inicial que a ele é dado. Princesa Irulan, cujo nome só é conhecido por quem acompanhou a campanha de divulgação do filme ou conhece os livros, é consciente e instigante.
Fica a expectativa de um desenvolvimento maior para a princesa nos próximos filmes.
Nota: 9/10
Duna: Parte Dois estreia em 29 de fevereiro nos cinemas do Brasil.