
Com divulgação quase nula no Brasil ou em qualquer outro lugar, não há muito o que atraia o público desavisado ao cinema para assistir Rivais, além da famosa cena íntima entre os protagonistas e o peso do nome de Zendaya no elenco. Talvez, felizmente, ambas as coisas somadas ao boca a boca sejam suficientes para impulsionar o divertido filme.
Em Rivais, Zendaya interpreta Tashi Duncan, uma treinadora de tênis imponente, focada e, às vezes, chata que trabalha com o marido. O casamento vai de mal a pior, pois o bem-sucedido Art Donaldson (Mike Faist) está muito menos empolgado com a própria carreira que a esposa e vem perdendo para atletas com histórico de desempenho abaixo do dele.
O diretor Luca Guadagnino demonstra esse desânimo numa cena propositalmente entediante em que ambos, inexpressivos, se encaram enquanto escutam o barulho do relógio passar.
Além da filha que tiveram juntos, o tênis parece ser o único pilar do casal. O filme volta duas semanas no tempo para mostrar que, a fim de recuperar a motivação de Art, Tashi decide inscrevê-lo numa competição pequena de tênis, em outra cidade.
É lá que Patrick Zweig (Josh O'Connor) é apresentado. Um tenista frustrado que competirá com Art, Patrick sequer tem dinheiro para pagar uma pousada modesta e acaba dormindo no próprio carro. Quem viu O'Connor na série The Crown, da Netflix, não vai acreditar no "mendigo alto e bonito" (como ele é descrito por um coadjuvante), além de sarcástico e malandro, que é Patrick.
Novamente, Rivais regressa a narrativa, dessa vez em 13 anos, e revela que Tashi, Patrick e Art já se conheciam.
O longo e divertido flashback, que é a melhor parte do filme, revela que Art e Patrick eram amigos de longa data e tenistas em competições universitárias, onde conheceram Tashi. Ela já era obcecada por tênis e tinha o talento reconhecido ao ponto de colocá-la no centro de campanhas publicitárias da Adidas, por exemplo. Uma verdadeira atleta prodígio, que nas conversas mais banais falava sobre se profissionalizar.
Por outro lado, os primeiros traços narcísicos dela são mostrados, e, numa cena quente a três, Tashi se mostra capaz de usar pequenas informações e manipular situações para satisfazer o próprio prazer.
A relação de Patrick e Art, aparentemente de uma amizade sólida, é testada pelo jogo (literalmente) de Tashi, e se mostra frágil; baseada em coleguismo, conveniência e competição. Eles começam a brigar gradativamente pela atenção dela, até que Tashi sofre uma grave lesão no joelho, Art a socorre antes de Patrick e é escolhido pela tenista.
A partir daí, o filme vira um jogo de tênis que vale a pena ver com os próprios olhos.
A história vai e volta no tempo a fim de explicar as mudanças nas relações do trio, além de estabelecer as motivações que vão guiar os próximos passos e as reações de cada um. Essa dinâmica de pingue-pongue é o triunfo do roteiro de Justin Kuritzkes, que não desperdiça o tempo do telespectador e aproveita o melhor de cada época.
Além do roteiro, o destaque técnico de Rivais é a fotografia. Sayombhu Mukdeeprom usa closes e câmera lenta para aumentar a tensão das sequências, e simplesmente há uma cena em que ele filma uma partida de tênis pelo ponto de vista da bola.
Na trilha sonora, os instrumentais de música eletrônica são instigantes, mas, às vezes, completamente aleatórios, e tanto confundem a intenção das cenas quanto obstruem o volume dos diálogos.
O longa é uma novela das oito, no melhor sentido da comparação, e explora de maneira divertida a profundidade e a falta dela em relacionamentos dominados pela insegurança e pelo narcisismo.
Nota: 8/10
Rivais estreia amanhã, dia 25 de abril, nos cinemas brasileiros.