Crítica: “Coringa: Delírio a Dois” é uma piada sem um pingo de graça

O diretor Todd Phillips conseguiu entregar um filme monótono e desinteressante mesmo com Lady Gaga no elenco.

02/10/2024 às 22h36 Atualizada em 10/04/2026 às 20h28
Por: João Pedro Dias
Compartilhe:
Lady Gaga como Arlequina e Joaquin Phoenix como Coringa em “Coringa: Delírio a Dois” — Foto: Reprodução | Instagram
Lady Gaga como Arlequina e Joaquin Phoenix como Coringa em “Coringa: Delírio a Dois” — Foto: Reprodução | Instagram

Quando Coringa: Delírio a Dois foi anunciado, em junho de 2022, eu estava tranquilo quanto à qualidade do projeto. Afinal, na minha cabeça, uma sequência escrita e dirigida pelas mesmas pessoas que fizeram o antecessor, que é excelente, não poderia dar errado. Bem... Todd Phillips e Scott Silver provaram que pode dar errado, sim.

Para recapitular, Coringa, de 2019, contou a história do aspirante a comediante Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem ignorado pela sociedade que sofre de diversos distúrbios mentais, mas principalmente de uma condição inspirada na epilepsia gelástica, cujo principal sintoma é o riso involuntário e descontrolado.

Joaquin Phoenix como Arthur Fleck em
Joaquin Phoenix como Arthur Fleck em Coringa: Delírio a Dois — Foto: Reprodução | Warner Bros.

Uma série de acontecimentos provocam Arthur a se tornar o Coringa e cometer homicídios, sendo o último deles em rede nacional de televisão. Ele é internado em Arkham e, continuando em Coringa: Delírio a Dois, espera o julgamento pelos crimes cometidos.

Essa sucessão direta de acontecimentos faz com que a sequência tenha cara de sequência — disso não dá para reclamar. O problema é que a nova história simplesmente não merecia ter sido contada, muito menos com um orçamento de 200 milhões de dólares.

Primeiramente, o enredo perdeu completamente o teor político do primeiro filme, que criticou o descaso da sociedade e do governo para com as pessoas com distúrbios mentais, além de mostrar diretamente, através do protagonista, as consequências bizarras dessa falta de zelo.

Aqui, falta uma linha narrativa consistente, um propósito, um viés forte de psicologia real. Resumindo, falta todo o padrão de qualidade estabelecido no filme de 2019. O novo longa, basicamente, foca no julgamento de Arthur e pincela um romance mal desenvolvido e confuso entre Arthur e Lee (Lady Gaga). Há também músicas e performances que estão lá por estar.

Lady Gaga como Harleen
Lady Gaga como Harleen "Lee" Quinzel em Coringa: Delírio a Dois — Foto: Reprodução | Warner Bros.

Mal desenvolvida, aliás, é a melhor forma de definir Arlequina. Inicialmente, Harleen "Lee" Quinzel é apresentada como uma homicida que incendiou o apartamento dos pais e que gosta de se expressar cantando lunaticamente. Ela vê o Coringa como uma inspiração.

Ao longo do filme, há uma reviravolta com Lee que poderia mudar pra melhor a dinâmica entre ela e Arthur, mas infelizmente não seguiu adiante. Parece que os roteiristas desistiram da personagem no meio do caminho.

Em entrevista ao Rotten Tomatoes, quando perguntado sobre a Arlequina de Lady Gaga, o diretor e roteirista Todd Philips disse que acha mais fácil escrever personagens para atores específicos.

Pois bem. No filme, parece que ele inseriu os elementos musicais exclusivamente para extrair performances de Lady Gaga, que ficaram deslocadas na trama e poderiam ter sido completamente removidas sem fazer diferença. 

É sempre bom ouvir a voz de Gaga, mas ela não tem muito com o que trabalhar como atriz aqui. Phoenix está excelente como sempre, mas, coitado, faz o que pode com o roteiro monótono que lhe foi entregue. 

Coringa: Delírio a Dois infelizmente é uma "piada" sem graça, sem um pingo da profundidade daquela contada por meio do primeiro filme. Parece um degrau desnecessário para um potencial projeto derivado da Arlequina que poderia ser contornado em um ou dois flashbacks.

Nota: 5/10

Estreia amanhã, dia 3 de outubro, nos cinemas brasileiros.

Siga o Prisma Cult no Instagram.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários