Por que o “cinema pipoca” foi dominado por sequências?

O diretor Erick Cindra culpa o capitalismo — mas provavelmente não da maneira que você imagina.

18/10/2025 às 11h59 Atualizada em 15/05/2026 às 09h35
Por: João Pedro Dias
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“Toy Story 5” estreia nos cinemas americanos em 19 de junho de 2026. O primeiro filme da franquia foi lançado no Brasil há mais de duas décadas — Crédito: Disney
“Toy Story 5” estreia nos cinemas americanos em 19 de junho de 2026. O primeiro filme da franquia foi lançado no Brasil há mais de duas décadas — Crédito: Disney

Sabe aquele filme despretensioso e leve que você assiste para relaxar? Ele provavelmente faz parte do chamado cinema pipoca. Vingadores: Ultimato (2019), por exemplo, é o filme de super-herói mais rentável já lançado. Além desse recorde, o quarto longa da franquia Vingadores detém o de segundo filme de maior faturamento da história do cinema, com mais de 2,7 bilhões de dólares arrecadados.

 

Esse é só um exemplo de como Hollywood encontra-se dominada por releituras e sequências. Vamos dar uma olhada no calendário americano de lançamentos cinematográficos para os próximos três anos do estúdio de animações Pixar:

 

  • Cara de Um, Focinho de Outro (6 de março de 2026)
  • Toy Story 5 (19 de junho de 2026)
  • Gatto (18 de junho de 2027)
  • Os Incríveis 3 (2028)
  • Viva: A Vida é uma Festa 2 (2029)

 

A maior parte dos filmes (destacada em negrito) trata-se de sequências. De uma lista com cinco longas, apenas dois são histórias originais.

 

Para o diretor brasileiro Erick Cindra (Quarta: Dia de Jogo, Onde o Homem Vira o Bicho e o Bicho Vira o Homem), formado pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, a dependência do cinema pipoca em propriedades intelectuais bem-sucedidas tem dois motivos principais: nostalgia e capitalismo.

 

"As temáticas dos filmes da Pixar, desde a década passada, têm se retroalimentado de uma característica de filmes feitos também para adultos. Os exemplos de Toy Story 3 e 4 seguem nessa pegada: filmes voltados para o público que assistiu Toy Story 1 e 2, pensando menos na atualização para novos públicos e mais na atualização da narrativa para os anteriores, que acompanharam os primeiros filmes. Acho que há um panorama muito associado a esse apelo da nostalgia e à forma como ele se adequa à produção de sequências".

 

Além da nostalgia, Erick acredita que a dificuldade de idealizar novos mundos para encaixar histórias originais  é um fator crucial para explicar o cenário atual do cinema:

 

"Parece uma dificuldade de imaginar outros cenários, outros mundos que não são este em que vivemos. O que quero trazer à tona é justamente o panorama de questões complexas: ambientais, sociais, e de desigualdade. Isto é, todo esse contexto de superação, de concentração de renda cada vez mais elevada e da dificuldade de imaginar outros mundos que não este. É uma tentativa de mitigar a complexidade e de não imaginar outros modelos de vida que estejam desassociados do panorama atual de um capitalismo e de um neoliberalismo desenfreado".

 

Chlöe Grace Moretz usa um vestido banhado de sangue cinematográfico em
Chlöe Grace Moretz como a protagonista de Carrie - A Estranha (2013), quarta adaptação do romance clássico de Stephen King e fracasso de crítica — Crédito: Sony

 

As releituras não vivem apenas do telão. O livro clássico de terror Carrie, a Estranha chegará às telinhas da Prime Video, após ser adaptado para o cinema três vezes e uma vez em forma de filme para televisão. Summer Howell (A Maldição de Chucky) protagonizará a série de 8 episódios, ainda sem data de estreia.

 

Para Erick Cindra, o streaming (a transmissão contínua de dados via internet, tecnologia popularizada por plataformas como Netflix e Spotify) permite o engajamento de públicos específicos com determinadas narrativas, o que torna as obras ainda mais comerciais.

 

Cindra, no entanto, não acredita que as adaptações de obras originadas de outras mídias sejam as vilãs da indústria audiovisual:

 

"Adaptações existem ao longo da história do cinema, e isso permitiu que obras maravilhosas fossem feitas. O cinema se embebe disso".

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